“Cartografias da diferença” no Queer Museu: Oxumaré e Exu presentes; exposição sobre questões de gênero e o Candomblé;

Recebo do amigo Johnata, aluno de Psicologia, UFFCampos, a foto que ilustra esta matéria. Engraçado ter conversado com o Babalorixá e Prof. José Cordeiro Filho (Univ. Católica de Salvador), filho de Logun-edé, sobre as ambiguidades nos orixás, as questões de gênero e o Candomblé, que será tema de seu próximo livro, muito recentemente, e tenho o prazer de trazer a discussão para o Portal VIU!.

O Santander Cultural, leia-se aqui, Sérgio Rial, seu Presidente, que introduz, em texto escrito, os objetivos da arte queer, se é que arte tem que ter algum objetivo. Ele nos diz em “A exposição Queer museu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” que a exposição, apresentada no Santander Cultural, “está ancorada em um conceito no qual realmente se acredita (quem? O público?): a diversidade observada sob aspectos da variedade, da pluralidade e da diferença. O que é diverso e tem multiplicidade, seja na área cultural ou étnica, na crença ou na linguística, ganha cada vez mais atenção por parte da nossa organização.”

Foto: Reprodução

Texto polêmico, mas bem instigante. Engraçado que há exatamente duas semanas, eu o meu amigo Babalorixá Prof. José Cordeiro Filho, discutíamos a possibilidade de um livro que trouxesse à baila a historiografia de alguns preceitos e fundamentos do Candomblé que têm diretamente uma estreita relação com as questões de gênero, orixás de duplo gênero, que é diferente de sexualidade, obviamente: ele exemplificou Oxumaré. Na verdade, me identifiquei muito com o projeto e me predispus a ajudá-lo na empreitada que começaremos em novembro.

Entrar nos estudos de gênero em qualquer religião, diria, é abordar os diferentes ângulos de visão e abordagens conceituais que são fundamentais para a compreensão da teoria e da prática funcional dos conceitos, pois extrapolam questões institucionais ou relacionadas ao politicamente correto. Trata-se de valor cultural diaspórico e de memória cultural-histórica.

O Santander, por meio da fala de Rial, diz-nos que “para nossa empresa, pois acreditamos que a diversidade é a impulsora da criatividade e da eficiência” explicaria essa mostra inédita, composta por cerca de 270 obras – oriundas de coleções tanto públicas quanto privadas – “que percorrem o período histórico de meados do século XX até os dias de hoje, promovendo o questionamento entre a realidade das obras e do mundo atual em questões de gênero e suas nuances.” (Disponível em https://pt.scribd.com/document/359783441/Educativo-QUEERMUSEU-Versa-o-Digital)

Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a exposição QUEERMUSEU: CARTOGRAFIAS DA DIFERENÇA NA ARTE BRASILEIRA “é a primeira exposição já realizada no Brasil com a referida abordagem, além de ser a primeira com tal envergadura na América Latina, o que insere plenamente o Santander em um contexto global. Queremos cultivar a diversidade em uma organização contemporânea, plural, criativa e madura. ”Aqui você pode ser quem você é!”. Então vamos falar de quem tem santo de Oxumaré e Exu:

Exu (Èsù) é a figura mais controversa do panteão africano, o mais humano dos orixás, senhor do princípio e da transformação. Deus da terra e do universo; na verdade, Exu é a ordem, aquele que se multiplica e se transforma na unidade elementar da existência humana. Exu é o ego de cada ser, o grande companheiro do homem no seu dia-a-dia, e pode ser também Eshua (do gênero feminino), o que o coloca no centro da discussão de gênero e candomblé. Muitas são as confusões e equívocos relacionados com Exu, o pior deles associa-o à figura do diabo cristão; pintam-no como um deus voltado para a maldade, para a perversidade, que se ocuparia em semear a discórdia entre os seres humanos. Na realidade, Exu contém em si todas as contradições e conflitos inerentes ao ser humano. Exu não é totalmente bom nem totalmente mau, assim como o homem: um ser capaz de amar e odiar, unir e separar, promover a paz e a guerra.

Oxumaré é um orixá masculino, a cobra, símbolo da continuidade e da permanência. Representa a riqueza e a fortuna. Rege o princípio da multiplicidade da vida, transcurso de múltiplos e variados destinos.

Os filhos do orixá Oxumaré estão em constantes mudanças em suas vidas. Quando se vai fechar um contrato, fazer uma compra, uma proposta, vender algo invocamos Oxumaré para nos orientar, pois ele é o orixá que sabe negociar. Ewá é o gênero feminino de Oxumaré, no Ketu. Pessoas que têm Ewá como orixá podem vir a ser pessoas de temperamento fácil de se lidar estando calmas, porém se tornam terríveis quando com raiva, representando nesse estado a serpente, que vem trazendo o lado negativo de Oxumaré, o seu lado mais perigoso, que é a falsidade e a perversidade.

A  filha de Oxumaré é do tipo mulher fatal, adora badalações, festas, joias e tudo que é caro. Descontraída e muito divertida, sempre com alto astral, ela vive em movimento constante. Qualquer prazer a diverte e por isto mesmo conquistar uma filha deste orixá é tarefa difícil. Geralmente são pessoas muito livres, não suportam serem controladas e não sentem o menor ciúme do parceiro. Segundo o Prof. José Cordeiro Filho, já os homens filhos de Oxumaré são fascinantes, aqueles que todos cobiçam em uma festa, mas são difíceis de conquistar. Sabem que marcam presença, discutem sobre qualquer assunto muito bem. Pelo sexo que é possível prender os filhos desse orixá que são muito livres e não gostam de parceiras ciumentas. É ele que sabe pechinchar, tratar, comprar e vender. É o orixá da riqueza, do dinheiro, chamando carinhosamente de “banqueiro dos orixás”. É o segundo filho de Nanã, irmão de Ossain e Omolú/Obaluaiê, que são vinculados ao mistério da morte e do renascimento. Ri Rô Ewá! – Significado: Doce, branda Ewá! Ewá é uma Orixá guerreira e de palavra firme, o que ela decide ou diz não há quem a faça mudar de ideia. O seu objetivo é proteger os que são puros e verdadeiros de coração e para compreender e se entregar totalmente ao seu ideal ela escolheu ficar sozinha e casta para sempre. Queer Oxumaré. Queer Exu!

 

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