Saiba como a saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã poderá afetar o bolso da população brasileira;

*Reportagem Especial | Foto: AP/Ibraim Noroozi

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na terça-feira (8) a saída de seu país do Plano Conjunto de Ação Integral (JCPOA), também conhecido como acordo nuclear iraniano. Apesar da distância entre a América do Sul e o Oriente Médio, os reflexos dessas mudanças na economia mundial podem trazer impactos dessa tensão sobre o Brasil.

A agência Sputnik fez uma excelente reportagem, ouvindo a especialista Juliana Inhasz, professora da Fundação da Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). Na entrevista ela explica exatamente como a economia brasileira pode ser afetada.

A saída dos Estados Unidos do acordo repercutiu mundo afora, com reflexos diplomáticos de primeira grandeza. Países considerados parceiros dos EUA, como Alemanha, Reino Unido e França, emitiram declarações negativas sobre a atitude do presidente estadunidense.

ENTENDA O CASO

O acordo foi assinado em 2015, e apontado como o fim de uma crise diplomática em torno do programa nuclear do Irã. Em troca da diminuição gradual de sanções econômicas sobre o país, Teerã concordou em reduzir seu programa nuclear e permitir livre a acesso de inspeções internacionais rigorosas de suas instalações científicas. As inspeções seriam uma forma de aferir se o programa manteve um desenvolvimento pacífico.

O Irã tem hoje uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que o coloca em uma posição importante na decisão do preço desse mineral, ainda fundamental para o funcionamento da economia do planeta.

E é exatamente esse elemento que poderia trazer impactos significativos para a economia brasileira.

“Aparentemente a gente está falando de um conflito distante, mas nem tão distante assim. A gente está falando ali de uma região, o Irã, que está no Oriente Médio, onde acontece grande parte da produção de petróleo do mundo. […] Um possível conflito [nessa região] pode causar uma interrupção, uma redução da produção de petróleo no mundo e isso tornaria o petróleo que vem para o Brasil […] mais caro”, afirma a professora Juliana Inhasz.

IMPACTO NO TRANSPORTE

A professora também apontou algumas possibilidades de fatores de variação do preço da mercadoria afetar o mercado brasileiro.

“Parece que está longe, mas não está não. A gente está falando aí, muito provavelmente, com qualquer tipo de conflito que aconteça a partir de agora, de um encarecimento do preço do petróleo, seja por conta dessa dificuldade de transporte, seja pela dificuldade de fazer o deslocamento dessa mercadoria, seja mesmo pela própria interrupção ou diminuição da produção do petróleo”.

Inhasz destaca que o fator de primeiro impacto é o preço dos transportes no Brasil, que terão reflexo direto de qualquer variação no preço da mercadoria. Um situação indesejável, visto a abrangência da malha rodoviária brasileira. “Isso é um problema muito sério, porque o nosso sistema de distribuição de mercadoria, de escoamento, ele é feito praticamente, quase que totalmente em rodovias. Então, hoje temos  um transporte que depende demais de derivados de petróleo, essencialmente diesel”, disse.

Outro impacto possível é o preço da matéria-prima. Produtos que têm derivados de petróleo como matéria-prima poderiam ter acréscimo de preço para o produtor final. É, portanto, uma soma de fatores. “Aumentou o petróleo, aumenta tudo”, afirma a professora.

FUGA DE CAPITAIS

Juliana Inhasz também alerta sobre a possibilidade de um efeito internacional do preço ter reflexos no Brasil. “A economia americana também muito provavelmente vai sofrer com esse efeito. Acontecendo isso […] a inflação americana também sobe. E o aumento da inflação americana vai acabar pressionando a economia dos EUA a aumentar a taxa de juros deles, porque eles têm um sistema bem parecido com o nosso de metas de inflação”, explica.

Com isso, segundo a professora, o mecanismo de regulação econômica tende a ser o mesmo utilizado no Brasil, a taxa de juros. Dessa forma, o investimento nos Estados Unidos, considerado menos arriscado, torna-se mais rentável e atraente, o que novamente aponta para um cenário negativo para os brasileiros.

Ainda na situação hipotética de flutuações causadas por atritos do Irã e reflexos de sua influência sobre a produção e circulação do petróleo, Juliana Inhasz afirma:  “Muito provavelmente perderemos um pouco desses investimentos para a economia americana, e isso acontecendo a taxa de câmbios sobe mais ainda. E com a taxa de câmbio subindo mais ainda nossos produtos importados ficam ainda mais caros. Então, provavelmente vai ter um duplo efeito sobre a inflação caso aconteça qualquer tipo de descontinuidade da produção ou problemas de escoamento da produção de petróleo daqui para a frente”, disse.

Com a economia brasileira ainda em ritmo lento de recuperação, esses efeitos seriam maus ventos para a retomada econômica. Com produtos mais caros, menos investimentos e impacto na inflação, a economia brasileira torna-se uma fator a mais para torcer contra crise que se instala entre o Irã e os Estados Unidos.

*Agência Sputnik News

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