As agruras da família Garotinho e os assassinatos seletivos de reputação; sobe a cotação dos portais digitais independentes;

Uma das verdades pouco ditas de forma explícita é que a imensa maioria (se não a totalidade) dos veículos da mídia corporativa só sobrevivem atualmente por conta de verbas originadas do setor público. É que se fossem depender de seus leitores, a mídia corporativa já teria fechado completamente suas portas.

Afora o fato de que não possuem a agilidade das redes sociais, a perda de relevância dos jornais e canais de TV tem muita a ver com a forma pouco plural com que sues proprietários apresentam as suas versões dos fatos, colocando de lado os próprios fatos.  Nesse sentido, quem reclama que a internet prejudicou seus negócios só está experimentando um pouco do próprio veneno.

Um caso que me parece exemplar de como a mídia corporativa causa danos à si mesma é a forma com que os imbróglios do ex-governador Anthony Garotinho e sua família com a justiça são retratados.  A desproporcionalidade do tratamento entre notícias negativas e positivas é tornada óbvia todos os dias. Se Garotinho dá um espirro enquanto estiver falando numa entrevista, a manchete é quase certa. Agora, se um de seus filhos, digamos, Wladimir for absolvido em algum processo importante (por exemplo, o caso conhecido como “Chequinho”),  a notícia é, quando muito, colocada numa nota escondida e sem qualquer chamada de capa.  O produto final disso é ocultar que Wladimir foi inocentado por falta de provas num processo em que, aparentemente, existe ampla abundância delas.

Essa desproporção de tratamento deveria envergonhar qualquer um que se pretenda jornalista sério, mas não. O tratamento desproporcional à família Garotinho já está naturalizado com o claro objetivo de demonizar não apenas o líder da família, mas a todos os seus membros. O que isso nos diz é que há que se dar o direito à dúvida a quem é retratado dessa forma, e não a quem retrata. É que, sendo inocente ou não, os objetos da cobertura que se pretenda jornalística deveriam merecer um tratamento minimamente proporcional. Essa deveria ser uma regra de ouro nas redações, mas faz tempo que a mídia brasileira, independente do tamanho da empresa, já perdeu os pruridos e passou a ser parcial e partidarizada. Por isso mesmo, repito, a mídia brasileira merece estar no buraco sem fundo em que se encontra. É que em vez de jornalismo investigativo, o que temos na maioria dos casos são ações de assassinatos seletivos de reputação.

NOVA MÍDIA ELETRÔNICA

Uma coisa que tem me chamado a atenção é o crescimento da relevância de portais eletrônicos independentes. O que muitos proprietários de veículos tradicionais teimam em não reconhecer é que a sua perda de relevância frente aos meios  eletrônicos de comunicação se dá por critérios que vão além da velocidade e rapidez que caracterizam as novas mídias. O critério que cada vez atrai mais leitores parece ser a do equilíbrio na cobertura, o que prefiro chamar de proporcionalidade. Por isso mesmo, no caso específico de Anthony Garotinho, não é por acaso que são os veículos da mídia eletrônica que vêm dando o espaço necessário para apontar para os elementos mais relevantes e contraditórios que cercam o atual cerco judiciário que ele sofre.

Por último, há que se ressaltar que a falência da capacidade investigativa da mídia brasileira está gerando outro fenômeno interessante que é o crescimento da importância da cobertura feita por grandes  veículos da mídia estrangeira como o El País e a BBC, que possuem portais específicos na língua portuguesa.  Esse fenômeno somado ao dos portais eletrônicos locais ou regionais deverá ter repercussões profundas sobre o mercado jornalístico brasileiro. E me arrisco a dizer que só sobreviverão aqueles que conseguirem oferecer informações que reflitam mais a realidade do que aquilo que seus interesses comerciais ditam que seja publicado.  Para os que não mudarem de postura, o naufrágio será inevitável. A ver!

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