Crise, medo, desesperança marcam o ano de 2018; enquanto isso, na terra da jabuticaba, de dentro da cadeia Lula lidera as intenções de votos na corrida presidencial;

O mundo vive um tempo onde promover políticas públicas fortalecendo o poder de compra dos salários e a influência dos sindicatos revela-se uma tentativa vã de forçar um tipo de política econômica em um ambiente hostil a ela, no qual o compromisso entre as classes dirigentes se baseia noutra perspectiva e interesses.

O ensaio desenvolvimentista do momento das recentes políticas heterodoxas de sustentação do nível de emprego, salário real e uma perspectiva simpática ao lado do trabalho se deu sob uma expressiva hegemonia financeira, na qual o compromisso é aquele firmemente assentado no capital portador de juros e no capital fictício, ou seja, na valorização financeira dos ativos e em uma tentativa de descolamento da esfera financeira dos interesses da produção.

Historicamente, enquanto no pós-guerra a acumulação de capital teve o sistema creditício como alavanca e um compromisso social do lado de baixo (gerentes e trabalhadores), agora a tentativa de autonomização das finanças leva ao descolamento entre produção real e finanças e a mudança, para cima, do compromisso (entre gerentes e capitalistas). Esse dilema vai marcar e tornar-se um divisor de águas nas propostas para eleição de 2018. Aliás, enquanto a deflação come solta na terra da jabuticaba, nós economistas perdemos tempos preciosos em debates e discussões intermináveis e inconclusivas sobre as razões pelas quais os empresários não retomam os investimentos.

Esquecemos que as famílias e empresas devem R$ 2 trilhões ao setor bancário. Portanto, não deveríamos ficar surpresos com o fato de que, mesmo com a queda dos juros nominais do Banco Central os novos investimentos não retornam. No quadro presente, os gerentes do capital estão impotentes para diminuir a grande ociosidade na produção. Um dilema.

No campo da disputa política, a pesquisa Datafolha traçou 9 cenários na corrida presidencial. Lula aparece em três deles e oscila entre 30% e 31%, à frente do deputado Jair Bolsonaro (PSL), que varia entre 15% e 16%, e Marina Silva (Rede), com 10%. Nos outros seis cenários, sem a presença do ex-presidente Lula, Bolsonaro e Marina Silva aparecerem tecnicamente empatados e Ciro Gomes tende a herdar parte dos votos do líder operário encarcerado, sem sentença transitada em julgado.

Casualmente assisti recentemente o filme de Ingmar Bergman, filmado em 1978 – “O ovo da serpente”, que mostra um olhar crítico da Alemanha, prestes a ver a chegada do nazismo. A palavra-chave daquele tempo sombrio era medo e a crise social era marcada pelo desemprego e pela desesperança.

Recorro então ao poeta Carlos Drummond de Andrade e seus versos sobre o Novo Tempo: “Calo-me, espero, decifro. As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto. Um quadro digno de Glauber Rocha em “Terra em Transe”.

 

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