Um país rico, mas com uma sociabilidade perversa marcada pela violência, repressão e alienação cultural;

Uma característica central do tempo presente é que não nos sentimos seguros, de conseguir controlar as nossas vidas, seguros de ter a capacidade, na forma dos meios, da habilidade e dos recursos seguros para enfrentar e poder viver em um mundo hostil.

Em suma, não conseguimos dar às nossas vidas a forma que gostaríamos, estamos assustados porque vivemos uma condição de constante incerteza. E o que é a incerteza? É a sensação de não poder prever como será o mundo quando acordarmos na manhã seguinte; é a fragilidade e a instabilidade do mundo, tudo trazendo surpresas.

Com a desmaterialização da economia, provocada pela revolução digital, o capital e o trabalho caminham rapidamente para se tornar dispensáveis. A riqueza é criada e destruída com extraordinária velocidade e de forma completamente dissociada do que restou do sistema produtivo do século XX.

No mundo contemporâneo, o poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas, das percepções coletivas, que tanto se expressam como se validam na criação de riquezas abstratas, tão impressionantes como voláteis.

No país da jabuticaba, o autor Sérgio Buarque de Holanda no seu livro “Visão do Paraíso”, no século passado, afirmou que “a história do Brasil é uma procissão de milagres”. Primeiro tivemos o ciclo do açúcar, depois do ouro, seguido do café ( a bebida estimulante do trabalhador, que se firmaria na revolução industrial). E mais recentemente tivemos o complexo da soja ( exportador de água ), o minério de ferro, e no futuro próximo, terá a exportação da grande reserva petrolífera da camada pré-sal, que deve nos colocar com um dos dez maiores produtores de hidrocarbonetos.

Um país rico, mas com uma sociabilidade perversa marcada pela violência, repressão e alienação cultural. Com baixa vitalidade econômica e semi-estagnado. Apresentando uma mobilidade social descendente (filhos mais escolarizados, com renda menor do que seus pais). Sociedade urbaniza com renda cadente, alto desemprego e apresentando ausência de oportunidades produtivas para sua juventude (30% desempregada).

Uma coalizão de interesses rentistas ganhou força política no país, via aumento do papel dos mercados/atores nas operações nacionais e internacionais dominantes no mercado financeiro local – o grande anunciante da mídia corporativa tupiniquim. Essa coalizão dá pouca atenção à industrialização, exige liberalização financeira, flexibilização do mercado de trabalho e esvaziamento do débil Estado social.

Essa poderosa coalização rentista usa três canais para afetar/manter os juros pornográficos praticados no país. O Relatório Focus, onde ela puxa para cima o piso dos juros, mediante qualquer soluço da inflação ( isso ocorre exatamente agora, basta olhar com atenção) O segundo refere-se à relação entre o mercado financeiro e o Tesouro Nacional, na negociação e rolagem dos títulos públicos – exercendo pressão por ganhos adicionais. E finalmente na instabilidade macroeconômica comandada pela ameaça de saída dos capitais externos, mediante a conta de capitais livre e completamente aberta. Aí costumam “ lavar a égua” nos famosos Swaps Cambiais.

Nesse contexto reduzir os juros para gerar um ambiente produtivo mais dinâmico revela-se um assunto de economia política crucial na discussão em 2018.

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