O réptil guarda a memória secreta do universo, por isso sua cabeça foi esculpida em uma haste por Moisés no deserto;

Há tempos, minha tristeza já não é minha companheira, que segue meus passos, que me intriga, me entrega, se aproxima. Ora ri, ora chora, ou como num picadeiro circense, ou em lágrimas como as que se vertem, como fazem as carpideiras, no féretro, dignificando a morte.

Cortejo fúnebre que se esgueira nas escarpas das montanhas! Quanto mais se distancia, avança, mais se afina e alonga, imagem de um cordão umbilical, o cortejo que vai como serpente, conduzindo, incansável, para o repouso eterno, o corpo inerte.

Serpente que atraída pelo deserto, quer salvar a morte, esperando a mão do profeta para levantá-la aos céus, brandi-la no ar, para quem quiser olhar e ganhar a vida eterna, por recompensa. Deus disse a Moisés para esculpir uma serpente de bronze e colocá-la numa haste para que seu povo fosse salvo no deserto do ataque das serpentes que o mesmo Deus enviou como castigo ao povo descrente, indisciplinado.

Não esmaguem a cabeça da serpente, nem com os pés da Virgem Maria, nem com os pés do Messias! A cabeça da serpente guarda a memória secreta do universo! Na cabeça da serpente, estão seus “olhos de vidro” que doam vida a quem os olham.

Não sei se é tristeza, alegria. Vida ou morte. Nem sempre a vida se sustenta na alegria!

Mesmo para quem se diz vivo, não deverá desprezar a vida como dádiva, como quando Moisés, ao erguer solene a serpente de bronze e conclamar seu povo a que alcançasse e venerasse a semente do mal, com seus olhos: é vida que se subtrai da serpente, doada ao crente, fiel.  

Esta  mesma imagem se repete no Calvário, a semente do bem suspensa numa cruz, de onde se extrai a vida eterna.

Mas não estou triste. Queria estar triste, como quem não tem o dom da vida, como quem está fora do alcance de quem pode ofertar a mim a vida, como dádiva, migalha.

A tristeza exige tempo de nós, nos deseja em exclusividade. Nos exige por inteiro! Só com a tristeza companheira conseguimos realinhar os passos passados e inventar os caminhos futuros.

Ao presente, cabe sua captura para que ela faça o que tem que ser feito, sempre a nosso favor. Cúmplice e vigilante de nossa trajetória, rumo ao mais feliz dos mundos.

Mas posso estar te enganando caro(a) leitor(a). Confesso que a tristeza me faz companhia, porque minha intuição espontaneamente despertaram em mim emoções que me guiaram em ações funestas, ou não. Não saberia dizer.

A serpente erguida ao calor do deserto não alcança minha visão. Minha certeza: não estou vivo! A procissão conduz meu corpo à cova, pela serpente que deveria ser parte da minha vida.

Nossa morte de cada dia é escandida, soletrada, a cada insatisfação, a cada exigência, a cada apelo sincero, a cada encontro que espero. Mas estou rodeado por aqueles que escolhi para estarem ao meu lado, porque eram meu espelho, onde podia me ver, em escandalosas caricaturas.

O espelho foi estilhaçado! Fiquei mais triste ainda. Mas posso recorrer a um almanaque de horóscopos e sempre lembrar-me de quem sou:

“o lado mau de Escorpião – 23 de outubro a 21 de novembro mal-humorado exigente introspectivo demais manipulador ciumento sarcástico malandro obsessivo impenetrável esquentado libidinoso autoritário compulsivo intenso guardador de segredos.

 

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