Alerta para o retrocesso do que a literatura pelas mãos do próprio doente já disse: Um manicômio é “o cemitério dos vivos”;

Segundo matéria no Brasil247, intitulada “Governo promove ‘privatização da loucura’ em sistema de saúde mental do país” (12/02/2019), “O governo Jair Bolsonaro quer reintroduzir no país a lógica que compromete mais de 50 anos de reforma psiquiátrica desenvolvida a partir da Europa que pretende reinserir o louco na sociedade”.

Com as diretrizes da “nova” Nota Técnica no. 11/2019, do Ministério da Saúde, um retrocesso geral, e órgãos a eles ligados, incentiva-se a internação involuntária ou compulsória da pessoa com saúde mental deficiente ou comprometida, por decisão de pessoas ou entes alheios à vontade do paciente, contrariando de forma radical o campo progressista da psicologia e psiquiatria no Brasil, que, seguindo os moldes de Itália e França, pregam o lema da luta antimanicomial: “saúde não se vende, loucura não se prende”.

É consenso entre os psicólogos que o hospital psiquiátrico é extremamente prejudicial à pessoa submetida a sua lógica, por se isolar o sujeito enfermo do trabalho, da comunidade, da sua vida diária na comunidade em que vive. Ao contrário dos métodos mais eficazes para o tratamento da loucura, a medida/Nota Técnica visa ao retorno dos doentes aos manicômios, ao choque elétrico (eletroconvulsoterapia) e, muitas vezes a tortura. Voltamos a que época? Vejamos.

Lima Barreto, que passou por mais de uma internação em sua vida, escreveu O Cemitério dos Vivos, considerada por muitos estudiosos “uma literatura de testemunho”, pois o ilustre autor escreveu em folhas de papel almaço, à tinta e a lápis, possibilitando que qualquer pesquisador, e já há tese de doutorado a respeito, tenha acesso à narrativa, bastante metódica, por sinal, que se passa no Hospício Nacional de Alienados, na Urca (RJ). Confessadamente inspirado em Recordação da casa dos mortos, de Dostoievsky, é bastante autobiográfico como sua obra no todo.

Lima Barreto foi internado duas vezes no manicômio, em ambas por alcoolismo crônico, com delírios e alucinações. Foi na segunda vez, de 25 de dezembro de 1919 a 2 de fevereiro de 1920, que resolveu registrar suas experiências, porque estava consciente, e sua passagem sofrida nos comove. É uma obra extremamente contemporânea, sensível e triste, pois perceber-se em um espaço para loucos, mostra-nos Lima Barreto, é realmente para enlouquecer qualquer um.

Pelas descrições feitas pelo autor-interno, o espaço descrito em pormenores não é para curar ninguém, mas, antes de tudo, para afastar do convívio de pessoas sãs os “doentes”, submetidos aos métodos dos funcionários do manicômio, que estão mais próximos da tortura do que da cura. A interrogação sobre o significado da loucura e a revolta sobre o tratamento dado aos supostos “anormais”, volta, nos dias de hoje, à discussão, pois a proposta da Nota Técnica do Ministério da Saúde do atual governo brasileiro pretende regredir mais de um século no método de tratamento de doentes com transtornos mentais.

Mais uma vez a literatura profetiza um mal social, politicamente doente, no final da segunda década do século XXI.

A loucura tomou conta do poder! Nefasto poder!

Estamos todos sujeitos a essa LOUCURA, a essa louca NOTA TÉCNICA. Podemos a qualquer momento virar personagens vivos de O Cemitério dos Vivos, perdoem-me o pleonasmo duro mas necessário. Reflitamos, caros leitores! Choque elétrico? Tortura? Manicômio? Estamos em um país governado por malucos delirantes. Será que fugiram de algum desses manicômios do final do século XIX? Simbolicamente é bem possível!

 

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