Rio contaminado por empresa norueguesa demorará séculos para se recuperar, diz cientista

Foto: Márcio Ferreira/Agência Pará

A mineradora norueguesa Hydro Norks, responsável pela maior parte do controle da refinaria Alunorte, no Pará, apresentou dois relatórios nesta segunda-feira em que nega que tenha havido contaminação das águas dos rios do entorno do município de Barcarena, no nordeste do Estado.

A divulgação desse último laudo contraria, inclusive, um outro documento da própria empresa lançado em fevereiro deste ano em que admitia o uso de duto clandestino para lançar rejeitos no rio. A confissão foi feita após a divulgação de um estudo do Instituto Evandro Chagas que diz que houve contaminação ambiental em três comunidades de Barcarena.

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (INPA), Philip Fearnside, disse que o derramamento de substâncias tóxicas nos rios afeta profundamente a vida da população ribeirinha.

“A população ribeirinha que usa a água do rio para sobreviver e a exposição a certas substâncias pode causar doenças graves. A empresa agora deveria ter que oferecer água pura para essa população espalhada”, apontou.

ENTENDA O CASO

O incidente ocorreu quando as bacias de resíduos da Hydro Alunorte ficaram sob pressão em razão das fortes chuvas, resultando no vazamento dos rejeitos em meados de fevereiro. Após o primeiro laudo do Instituto Evandro Chagas, o Ministério Público do Pará e o Ministério Público Federal iniciaram investigações e solicitaram novos estudos. O Ibama já aplicou uma multa de R$ 20 milhões à empresa por “realizar atividade potencialmente poluidora sem licença válida da autoridade ambiental competente” e por “operar tubulação de drenagem também sem licença”.

Para Fearnside, a multa é uma atitude positiva, mas ele questiona o valor aplicado. “É um empresa bilionária, então 20 milhões é um trocado para eles, mas é importante ter uma multa que chame a atenção da empresa. Porém não sei que tipo de regulamento existe em termos de valor de multa”, afirmou.

Fearnside ressaltou o fato de que alguns desses danos são praticamente irreversíveis para o meio ambiente, que pode demorar séculos até que o ecossistema volte ao seu estado natural.

“Algumas coisas não vão voltar mesmo. Foi encontrado urânio e esse tipo de substância dura séculos até ser eliminada. Agora eles vão ser depositados nos sedimentos e nos mananciais e isso diminui o impacto humano, mas eles ficam no ar, não é uma coisa que desaparece por completo”, disse.

OUTRO LADO

No comunicado divulgado na segunda-feira, a empresa disse que está realizando investimentos no valor de R$ 300 milhões na região de Alunorte que serão destinados ao sistema de tratamento de água da refinaria e para ações sociais nas comunidades.

Fearnside defende que seja olhado com mais cuidado o histórico de acidentes ambientais das empresas que ganham licitações no Brasil.

“O Brasil está no momento com uma enorme entrada de empresas chinesas, inclusive na parte de hidrelétricas. E a China é conhecida por ter uma péssima legislação ambiental. É necessário ter uma fiscalização sobre os históricos de todas as empresas, não só as estrangeiras. É só ver o que aconteceu com a Vale em Mariana (MG) para perceber que o problema não está no fato da empresa ser estrangeira”, completou.

O Instituto Evandro Chagas emitiu nota, respondendo ao relatório da Hydro Norsk, que contestava o seus dados originais.

“Os relatórios técnicos (RT’s) divulgados pelo IEC buscam sintetizar os resultados encontrados na análise das amostras. No entanto, esses documentos não contêm à exaustão todas as informações que se encontram nos Relatórios de Análises (RA’s) gerados para cada amostra. Nos RT’s são apresentados apenas dados essenciais para garantir a qualidade dos resultados”, escreveram.

*Agência VIU! com Sputnik News

 

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