Ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2008, Paul Krugman aponta 4 sintomas de desaceleração econômica;

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O economista Paul Krugman avalia que a próxima crise econômica global, cujos sinais estão latentes, será desencadeada por múltiplos fatores: desaceleração na economia da China, da Europa, guerra comercial e crise política nos EUA.

Na Europa os sintomas ecoam em três frentes: com o Brexit, com a tara do governo alemão pela austeridade e o desequilíbrio na economia italiana.

Nos EUA, os riscos são as aventuras de Donald Trump, que conseguiu mergulhar o país numa crise política em função da queda de braços que trava com o Congresso. Na China os riscos residem na economia profundamente desequilibrada, com investimento demais e consumo de menos. 

Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton (EUA), ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2008 e analisou os riscos de uma nova crise em artigo publicado no The New York Times. Confira trechos de sua análise:

4 SINAIS DE AMEAÇA, SEGUNDO PAUL KRUGMAN

1 – CHINA – Muita gente, inclusive eu, tem previsto uma crise chinesa há um bom tempo – mas ela nunca aconteceu. A economia da China é profundamente desequilibrada, com investimento demais e consumo de menos; porém, volta e meia o governo tem conseguido se distanciar do precipício aumentando a construção e ordenando aos bancos que tornem o acesso ao crédito extremamente fácil.

Será que finalmente chegou o dia do acerto de contas? Dada a resiliência da China no passado, é difícil acreditar que sim. Ainda assim, os dados mais recentes sobre a produção chinesa parecem assustadores.

Fora isso, problemas na China teriam repercussões globais. Nós tendemos a pensar na China apenas como um mamute da exportação, mas ela também é um grande comprador de bens, em particular de commodities como soja e óleo; fazendeiros e produtores de energia dos EUA vão ficar bastante insatisfeitos se a economia chinesa travar.

2 – EUROPA –  Há alguns, a fraqueza economia estrutural da Europa, graças a uma população em envelhecimento a à obsessão alemã em ter superávits, foi mascarada pela recuperação do país da crise do euro. Porém, esta fase de boa sorte parece ter chegado ao fim, com a incerteza ao redor do Brexit e a crise em câmera lenta da Itália minando a confiança; como no caso da China, os dados recentes são feios.

E, assim como na China, a Europa é um grande ator na economia global, de modo que os tropeços dela vão transbordar para todo mundo, os Estados Unidos bastante inclusos.

3 – GUERRA COMERCIAL – Ao longo das últimas décadas, empresas ao redor do mundo têm investido grandes quantias baseadas na crença de que o protecionismo das antigas era coisa do passado. Porém, Donald Trump não apenas impôs tarifas elevadas, ele demonstrou uma disposição em violar o espírito, se não a letra, dos acordos comerciais existentes. Você não tem de ser um adepto do livre comércio para acreditar que isso deve ter um efeito econômico deprimente.

Por ora, as lideranças empresariais supostamente acreditam que as coisas não vão sair do controle, que os Estados Unidos e especialmente a China vão chegar a um acordo. Mas este sentimento pode subitamente mudar se e quando as empresas perceberam que os linha-dura ainda parecem ser quem manda.

4 – EFEITO TRUMP – Não são só os funcionários públicos federais que ficaram sem receber. Foram também os prestadores de serviço, que nunca vão ser reembolsados por suas perdas, as pessoas que recebem cupons de alimentação e serão cortados se o impasse continuar, e por aí. As estimativas convencionais dos custos do fechamento são quase que certamente muito baixas, já que não levam em conta a interrupção que um governo não-funcional impõe a todos os aspectos da vida.

Como no caso de uma guerra comercial, lideranças empresariais supostamente acreditam que o fechamento será resolvido de modo permanente em breve. Mas o que acontecerá ao investimento e às contratações se e quando a América corporativa concluir que o Sr. Trump se enfiou em um beco sem saída, e que isso pode se prolongar por vários meses?

Ou seja, há várias coisas dando errado, e todas elas ameaçam a economia. Quão ruim isso vai ser?

A boa notícia é que mesmo considerando todos esses aspectos negativos somados, eles não chegam nem perto das pancadas que a economia mundial levou da crise financeira de 2008. A má notícia é que não está claro o que os tomadores de decisões podem ou vão fazer para responder quando as coisas derem errado.

POUCA MARGEM DE MANOBRA

A política monetária – isto é, os cortes na taxa de juros promovidos pelo Federal Reserve e seus equivalente pelo mundo – normalmente é a primeira linha de defesa contra uma recessão. Só que o Fed tem muito pouco espaço para cortar, porque as taxas de juros já estão baixas, e na Europa, onde as taxas são negativos, não há espaço algum.

A política fiscal – altas temporárias no gasto do governo e no auxílio aos trabalhadores vulneráveis – é o apoio tradicional à flexibilização monetária. Mas será que um presidente que até recentemente mantinha empregados federais reféns em busca de uma parede inútil estaria disposto a implantar um estímulo razoável? Além disso, na Europa, qualquer proposta para uma ação fiscal provavelmente se depararia com o tradicional “nein” alemão.

CRISE EXIGE COOPERAÇÃO

Por fim, lidar de maneira eficaz com qualquer tipo de desaceleração global exige bastante cooperação internacional. Quão plausível é esperar isso quando se leva em conta quem está no comando?

De novo, não estou dizendo que uma recessão global necessariamente está para acontecer. Mas os riscos estão claramente crescendo; as condições para uma freada assim estão aí, de uma maneira na qual não estavam nem mesmo há alguns meses.

 

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