Acordei sem saber em que país estava. Sensação Zero! País Zerado!; É uma história policial em quadrinhos muito previsível; Leia mais:

Fui dormir, ontem, fatídico domingo, logo após a apuração dos votos que elegeram o nosso agora presidente. Sonhei muito e tive horríveis pesadelos, pois adormeci ao som de fogos e tiros misturados, do Parque Tamandaré ao Parque Guarus, em Campos dos Goytacazes (RJ), onde nasci. Acordei sem lembrar meu nome e sem saber em que país estava. Porém, lembrei-me imediatamente, ao sair do transe, de um romance de Ignacio de Loyola Brandão: ao participar de uma mesa do SESC de Recife, em 2014, interessante a postura do literata.

Dela me lembrei imediatamente ainda na cama: no Recife, até pelo tema da Mostra Sesc – a relação entre política e memória, para recordar os 50 anos do golpe militar de 1964 –, o autor paulista se focou nos bastidores da obra. “Vai ser uma conversa direta e honesta.  Não será uma fala acadêmica, sobre metáfora e desconstrução. Quero falar, na verdade, sobre a construção de Zero, isso sim”, adianta. A mesa foi no dia do seu aniversário de 78 anos. “Marquei sem notar que as datas coincidiam, mas não ligo”.

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Para o autor de Que País é esse e outros textos soberbos, das narrativas censuradas pela ditadura, a sua é uma das que continua sendo lida e mais se mantém atual. “Tem um grupo de jovens que está adaptando o livro para um curta-metragem, passado nos dias atuais. O papel que cabia à ditadura eles botam como desempenhado pelo mercado. Isso é evidente, é só transpor o símbolo. Argumentam que a economia não tortura ninguém, mas ela sempre teve formas de criar opressões e angústias”. Nada mais atual. A Burguesia decadente escolhe votar no opressor, criado pelo mercado, inclusive o de notícias FAKE.

Sobre o contexto atual, Ignacio não tem muito otimismo. Neither do I. “Na verdade, estou cansado de falar de política. Não quero mais falar de política. Estou enjoado e enojado com o tipo de política que se faz no Brasil. Partidos brigando por minutos na televisão, partidos se vendendo uns aos outros em troca de cargos. Só falamos chavões, dizemos frases feitas. Vendilhões do templo, diria Jesus” Um  desabafo! Para ele, “Ninguém se salva. Ao mesmo tempo, não falar de política já é uma atitude”.

A notícia que o militante comunista Gregório Bezerra havia sido arrastado pelas ruas do Recife marcou o escritor paulista Ignacio de Loyola Brandão. Outras brutalidades do regime militar foram se somando na sua mente e nas suas anotações: a morte do filho de Zuzu Angel, o assassinato de Rubens Paiva. O terror da época foi capturado nesse seu mais famoso romance, Zero, lançado há 40 anos na Itália – ele quis contar ali, no universo da ficção, tudo que não podia contar como realidade.

A história da publicação de Zero ilustra bem como a ditadura brasileira lidava com a arte. Rejeitado por várias editoras, o livro só foi lançado no Brasil em 1975, um ano depois da primeira edição italiana. No ano seguinte, foi proibido de circular em todos os países – o regime militar dizia que a obra “atentava contra a moral e os bons costumes”. E hoje? Onde estamos? Estamos regredindo e voltando no tempo? À época, Ignácio lembrou que soube por Mino Carta, que estava em Brasília, do processo contra o livro.

Entrevista Ignacio Loyola Brandão | Fonte: Youtube

“Podia ser censurado por motivos políticos ou morais. Um processo político significava que eu seria preso, também. O censor da editora disse: ‘Se for por motivos morais, você pode ficar tranquilo’. Como se alguém pudesse ficar tranquilo tendo um livro proibido”, recordou aos risos o autor. A obra só foi liberada em 1979.

Narrativa inovadora dentro do panorama brasileiro, Zero mostra o casal Rosa e José em meio a um mundo esvaziado e cheio de taras. O tom agressivo do romance reflete os tempos de chumbo da época, completado com slogans publicitários, recortes de jornal, notas de rodapé, depoimentos, falsa matérias e quadrinhos. Por usar esses elementos como parte da narrativa, Ignacio viu seu livro ser mais associado pela crítica, ao longo dos anos, a uma ideia de “experimentalismo” – termo que ele mesmo não gosta. “O livro não é um experimento, é uma obra pensada para ser assim”.

O formato singular de volumes como Zero desconcertam a crítica, que recai nesse rótulo. O romance retratava o Brasil como ele estava no pior momento do regime: despedaçado. “É daí que vem essa estrutura”, rebate o autor, lembrando que precisou de dez anos para completar a história. Para ele, das narrativas censuradas pela ditadura, a sua é uma das que continua sendo lida e mais se mantém atual. (Idem)

Na noite anterior à entrevista, Ignácio precisou terminar e revisar um livro, feito por encomenda. Ao mesmo tempo, vinha trabalhando em uma ficção sua, sem previsão de lançamento. É “um livro sem política, mas altamente político”, ele adianta. A ideia gira em torno de um homem que perde o seu nome e não sabe em que país está. “É uma fábula, é claro”. Explica-se a voz do meu inconsciente ao acordar.

Em 8 de outubro de 2018, o Brasil zerou. Elegeu o Sr. Jair Bolsonaro seu novo presidente. Virou uma fábula! Que país é esse? Uma história policial em quadrinhos. Porém, muito previsível!

 

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