A entrevista com o escritor, mestre em filosofia e articulista do Portal VIU! é imperdível: “Nossa identidade não tem que ser resultado de consensos”, diz

João Vicente Alvarenga é um ser inquieto e instigante. A figura aparentemente frágil esconde um pensador firme, com opiniões contundentes sobre os mais diferentes temas. De sua escrita emerge um libertário, que não admite ser pautado por consensos. É guiado por sua autodeterminação. Confira entrevista:

Deneval Siqueira (DS) – Quem é João Vicente Alvarenga?

João Vicente (JV) – Todos temos uma descrição objetiva a partir de nossa chegada ao mundo. Uma biografia que muito pouco nos diz sobre nós mesmos! No entanto, somos focos de disputa desse mundo que nos recebe. A família quer nos dizer algo que nem sempre nos interessa. A realidade concreta do mundo fenomênico nos promete o que não pode nos oferecer. E o que nos oferece não constitui matéria prima para a elaboração de nossa subjetividade. Isso, no meu entender, é a tragédia que nos assombra. Eu sou o desejo ardente dessa subjetividade escandalosa.

DS – Você tem publicado muitos artigos instigantes sobre religião e filosofia. Pode nos explicitar a relação dos dois temas no mundo contemporâneo?

JV – Sobre a religião, não estou de acordo com que ela seja capaz de fornecer respostas. E não pode ser diferente, porque a resposta está sempre atenta para nos castrar, nos imobilizar, cassar nosso direito de audácia e criatividade; quanto à filosofia, ela redimensiona a pergunta, de tal maneira que chega a inviabilizar a resposta. A resposta, enquanto linguagem, não é suficiente para escapar dessa armadilha. A não ser a linguagem poética, pergunta e resposta simultâneas. Nessa perspectiva, esses dois campos do conhecimento não teriam nenhuma chance de fundamentalismos. Os grandes relatos ficariam definitivamente nas galerias do passado.

Escritor João Vicente Alvarenga
“… ‘eu sou aquele que sou’. Faço minhas as palavras de Deus.”

DS – Como define a homofobia nas diversas classes sociais? O que dizer dos cadeadões de armário?

JV –  A homossexualidade, sabemos, é uma condição de vida e não opção, como querem fazer crer. Na visão homofóbica, a homossexualidade vista como opção, o coloca diante de um dilema: se existe quem já mudou de sexo, quando será a minha vez? Então ele quer destruir essa possibilidade ao nível da sua sexualidade, agredindo o homossexual. A disciplina educação sexual, ao abordar o tema da homossexualidade, desde o fundamental, deve fazer a diferença entre condição e opção. Todos sairiam ganhando, os homossexuais e os que futuramente poderiam ser homofóbicos. Quem não se sente à vontade pondo sua intimidade em risco, certamente que ele vai se esconder carregando inutilmente uma dor não compartilhada.

DS – Realizado como professor?

JV – Não me arrependo de ter abraçado o magistério. Foram 40 anos de alegrias, satisfação, além do prazer proporcionado pelo trabalho com colegas competentes, com quem pude aprender muito. Quando ex-alunos (as) me encontram é uma coisa muito boa, sensação de dever cumprido. Poderia ser melhor se eu me lembrasse deles (risos).

DS – Sua cidade, Campos dos Goytacazes (RJ) é……

JV – Campos dos Goytacazes é a cidade das indefinições: climáticas, geográficas, sociais, econômicas e políticas. Essa cidade precisa ser remodelada.

“Não me arrependo de ter abraçado o magistério. Foram 40 anos de alegrias.”

DS – Você demonstra ser vintage com seus apelos corporais em nudes e nas tatuagens. Sempre foi assim? Se houve mudança, por que mudou?

JV – Nem sempre foi assim. Nossa identidade não tem que ser resultado de consensos, quer sejam de pais, da profissão, da sociedade, de amigos, religião. Deus na sarça ardente, perguntado por Moisés sobre quem ele era, respondeu: “eu sou aquele que sou”. Faço minhas as palavras de Deus. Ele aqui deixa claro que não usa máscaras. Nem eu.

DS – O que acha do movimento teatral de campos, considerando as produções locais atuais?

JV – O nosso Teatro é uma colcha de retalhos, mosaicos que não compõem uma unidade palpável, para além de eventos que não dizem a que vieram. Essa unidade, se existisse, deixaria o público numa expectativa saudável. A imagem de linearidade do que digo me ajuda a dizer que é possível uma política clara, eficiente, robusta e amarrada, enfeixada por uma ampla política cultural, com uma intenção básica de um calendário, facilitando a que o público venha a ter uma visão do que se está propondo.

 

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