Manchetes imundas, país doente e o povo brasileiro no meio do furacão; Leia análise sobre o livro “A festa suja” e assista entrevista com escritor Ivan Ângelo (VÍDEO):

Escrever sobre Artes e Literatura neste momento, ou qualquer obra de ficção literária, uma crônica, por exemplo, é só documentar a realidade que vivemos hoje no Brasil. Realidade esta que está horrorizando o mundo: um país doente e cheio de ódio, fomentado por um Presidente eleito, doente, insano e sujo.

Sim, imundo! E me sinto AQUI no direito de escrever uma coisa imunda, nojenta e suja. Literatura Fantástica. A festa suja é nome: reproduzo analiticamente o romance A FESTA, de Ivan Ângelo, prêmio jabuti de 1976, ainda nos anos da ditadura: A obra do jornalista, romancista e cronista brasileiro Ivan Ângelo, A Festa: Romance, Contos, teve sua primeira edição publicada no ano de 1976.

Trata-se de um romance reportagem, repleto de recortes jornalísticos que causa no leitor, por vezes, a sensação de estar diante de um documentário. O livro é estruturado em nove episódios, a saber: Documentário, Bodas de Pérola, Andrea, Corrupção, O Refúgio, Luta de Classes, Preocupações, Antes da Festa e Depois da Festa. O item denominado Documentário é subdividido em Fash-Back, Fim do Fash-Back, O Flagelado e Liberdade para Marcionílio!

Entrevista | Ivan Ângelo – Fonte: Sesc TV

Documentário, como o nome sugere, é um momento da obra em que o autor se vale de recortes jornalísticos para retratar, em apertada síntese, o triste destino dos personagens flagelados que desembarcaram em Belo Horizonte em busca de melhores condições de vida.

Nesse momento, o enredo mescla a atuação do narrador com a apresentação de trechos de depoimentos dos personagens que tiveram que prestar declarações ao DOPS. Pois à época isso realmente acontecia. Já nesse primeiro capítulo o autor deixa clara sua intenção de retratar as mazelas político-sociais da época, já que cita figuras como o Departamento de Ordem e Política Social e Lampião, por exemplo.

Em Bodas de Pérola é apresentada a história de um casal que na sua juventude fez um pacto de que, quando percebessem que a velhice se aproximava, iriam morrer juntos, para evitar as frustrações advindas dessa fase da vida.

No desenrolar da apresentação desse casal é demonstrado que a esposa se arrepende do trato, o que frustra completamente o marido, que passa a tratá-la com indiferença desconcertante. Por derradeiro, o marido acaba por envenenar-se e à esposa, mas se morreram ou não, o leitor só descobre no desenlace da obra.

Andrea, Corrupção O Refúgio tratam, respectivamente, das seguintes personagens: Andrea, uma jornalista que tem uma vida emocional e profissional conturbada; pai, mãe e filho, que têm uma relação que envolve sentimentos de amor, obsessão e ciúme, onde pai e filho se entendem, enquanto a mãe é completamente preterida; Jorge, um advogado que tem os mínimos detalhes de um dia “x” apresentados pelo narrador.

Cada um desses personagens que, aparentemente têm histórias isoladas, tem sua importância na obra. Suas vivências que pareciam avulsas, em uma obra que supostamente traz contos independentes, se cruzam e revelam um encadeamento de ideias surpreendente por parte de Ivan Ângelo.

Como no Brasil de hoje, onde e quando tudo nos surpreende ou nada nos surpreende mais!

Luta de Classes apresenta dois personagens que representam o mundo dicotômico vivenciado pelo autor à época da produção dessa obra: a classe social e a classe social Z. Vivendo realidades completamente distintas, as personagens trazidas nesse capítulo acabam literalmente se esbarrando ainda no final do capítulo.

Trazendo as preocupações, respectivamente, de uma mãe de um estudante militante do DCE, e de um delegado de polícia social que se investe interiormente da figura do Príncipe (de Maquiavel), o episódio intitulado Preocupações, 1968 antecede a festa tão esperada pelos leitores (já que a mesma dá nome à obra).

Antes da Festa é um episódio repleto de recortes das ações praticadas pelas personagens, que ainda caminham em direções diversas e de forma independente. Nesse momento da obra o autor se vale de um recurso interessante que é a inserção da chamada “anotação do autor”.

Ao trazer explicações acerca da obra como se o tal “escritor” fosse mais uma personagem, o autor deixa o livro com ares de metalinguagem. Já pensou que estamos em um Metabrasil?

O último episódio chama-se Depois da Festa, e sua função é explicar o destino de cada história que, em seu devido capítulo, ficou no suspense.

Ivan Ângelo aproveita esse tópico para trazer, no item denominado Escritor (ÂNGELO, 1978, p. 108), alguns apontamentos sobre o decorrer da festa, já que não dedicou um capítulo para apresentar o ambiente e as histórias vividas no curso do evento que dá nome ao livro. Ora, pois!

A obra em seu conjunto é interessante por ter uma forma peculiar de ser produzida, já que, como já foi dito anteriormente, até certo momento do livro o leitor não consegue identificar uma homogeneidade das histórias apresentadas.

A impressão que se tem é de que são contos soltos e independentes, até que Ivan Ângelo, de forma articulada e surpreendente, começa a entrelaçar fatos e dados apresentados no início do livro, dando pouco a pouco, ao leitor, a ideia global da obra.

Por seu caráter peculiar de romance reportagem, que visa apresentar o quadro político ditatorial do Brasil, a obra é recomendada não apenas aos apreciadores de Literatura, mas também aos jornalistas e historiadores, que dedicam seus estudos a essa fase de nossa História.

Como vai você, no Brasil de hoje! A Festa não é nossa! A Festa não é sua! A Festa é podre, fede a peixe podre! O Brasil se veste de preto! Muito longe do amarelo votado nas urnas! FESTA NEGRA ESSA BANDEIRA NÃO É NOSSA!!!

BIBLIOGRAFIA:

ÂNGELO, Ivan. A Festa: Romance, Contos. 3.ed. São Paulo: Summus, 1.978.

 

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