“O que sinto é grandioso, intenso, mas que posso suportar sem dividir, ou confessar…”, Leia e saiba mais:

A mão encarcera em estreita cumplicidade a caneta, entre os dedos, que trepida na pauta do caderno! Entre sustos e sobressaltos, a decisão a ser tomada, acabo delineando sobre as linhas o que ainda não é a verdade do sentimento, mas que se organiza prestes a se tornar enredo.

O que sinto ainda não é a história liberta, peito aberto no arfar loucamente; deixar-se levar levemente como folhagem seca, em balé inesperado, no sussurro de uma ventania, que se espalha e espalha o que tento guardar, como segredo de amantes.

A tempestade se anuncia em cores negras e cinzas, prometendo revelações dos intrincados da memória (onde eu e você permanecemos guardados um para o outro).

Absurdo surdo silêncio grandioso que se torna ofensa a quem tanto deseja uma confessável história de amor. A história só é possível no espaço comprimido da intimidade a dois.

O que sinto é grandioso, intenso, mas que posso suportar sem dividir, ou confessar, porque seria absurdo e incompreensivelmente obsceno aos olhares e ouvidos dos amantes, levianos desapegados do verdadeiro amor!

O que sinto é pouco ou nada. Inconfessável, certamente.

O que sinto poderá ser a saudade que guia a caneta que se equilibra na tênue linha do caderno em pauta. Mas ainda não é história e temo que nunca venha a ser. Te libertei desse infortúnio, outras vezes tão desejado infortúnio.

A saudade é minúscula diante da imensa dor que a provoca, ainda mais quando ela não pode ter nome: anônima, apócrifa, sem história pra tecer.

A dor existe! A saudade existe! Mas você, que é o amor nessa ausência, é a maior das ausências para quem não devo confessar esse amor diante do que sou, que ultrapassa, em muito, minha capacidade de suportar “um eu sou o que sou”.

 

Comentários

comentários