VÍDEO: A poesia memorialista cultural e telúrica de um autor assumidamente “marginal”, que joga com o absurdo e com a persona teatral; Leia mais: 

Artur Gomes é poeta de longa ancestralidade e forte techné, e sempre nos brinda com sua poíesis de tom ritmado na pesada musicalidade de herança oral. Campista goitacá, em breve, lançará, O Poeta enquanto Coisa, cuja Psicótica – 67 transcrevo abaixo.

Psicótica – 67
com os dentes cravados na memória

não frequento academias
físicas – e muito menos literárias
minha palavra avária
está à beira do precipício
nem sei porque não continuei
internado no hospício
onde choques elétricos aconteciam as tantas
no manicômio Henrique Roxo
na cidade de Campos dos Goytacazes
onde a medicina psiquiátrica
era exercida por capatazes de médicos açougueiros
e um Capixaba de nome Vespasiano
não resistiu ao surto
explodiu a cabeça contra a parede
e nenhum jornal da cidade
noticiou o suicídio
que eu trago na lembrança
com os dentes cravados na memória

Artur Gomes 
O Poeta Enquanto Coisa

Tendo como marca registrada da sua obra o palimpsesto e o intratexto, onde se confundem a voz do eu-lírico, refundado na memória dos jornais, do noticiário policialesco, na jornada absurda da crueldade a la Antonin Artaud e salpicada de telurismo, sua poética vem sobressaltar os menos avisados.

Artur Gomes – In Concert

Artur Gomes In ConcertFULINAÍMA MultyiProjetosStudio Fulinaíma Produção Audiovisual

Publiée par Studio Fulinaíma Produção Audiovisual sur Vendredi 19 janvier 2018

Fonte: Facebook

Retomando alguns traços de Jorge de Lima e Ana Cristina César, não fica no passado mnemônico, pois seu traço lírico principal é do poeta memorialista cultural e telúrico, de perfil universalista, pois joga com o absurdo e com a persona teatral, desfazendo-se da loucura qualquer que seja, pois trabalha a arte do poema com desvario lírico musical a la Bethoven, a la Wagner, compondo uma ópera do absurdo nas memórias subjacentes.

Psicótica – 67com os dentes cravados na memórianão frequento academiasfísicas – e muito menos literáriasminha…

Publiée par O Poeta Enquanto Coisa sur Mardi 15 janvier 2019

Fonte: Facebook

O percurso de Artur Gomes é muito interessante e enriquece a historiografia dos poetas brasileiros contemporâneos, assim como Adriano Moura, Flávia D’Ângelo, entre outros não publicados ainda.

Vale a conferida. Estamos todos aguardando o livro de poemas O Poeta Enquanto Coisa (2019), título que sugere a materialização da memória no poema, de grau cabralino, e que segundo o autor-poeta “o instante que  nos obriga a ser memorialistas”. Certo. A memória não perdoa, ela finca a faca no peito do leitor, sem sangue, mas cheia de feridas.

 

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